Este Lugar



Se por aqui passar, fique em silêncio se assim quiser, mas deixe um sinal se puder.
Se entediar, tenha paciência: minha palavra há de melhorar!



terça-feira, dezembro 15, 2009

Tchau


Desejo-lhe boa viagem
Sem falsa camaradagem
Continue a brilhar
No seu próximo lar
Não chore à tôa
Lembre que a vida é boa
Seja sempre forte
Aproveite a sorte
Pode continuar louca
De estabilidade pouca
Mas também seja careta
Às vezes é porreta!
Ligue se precisar
Estarei lá, pode contar
Se for muito urgente
Não se apoquente
Tome um chá quente!
Chega de brincadeira
De tanta asneira
Enrolar muito não dá pé
O fato é que em você eu boto fé
Por isso seja feliz
Só não vale ser meretriz!
Desculpe, sou meio tonta
Pelo menos a rima está pronta!

segunda-feira, dezembro 14, 2009

José Davi e Maria Alice


Mil novecentos o oitenta. José Davi, vinte anos, regou o último pé de mandioca da pequena plantação no interior do estado de São Paulo, olho para cima, respirou fundo e começou a sonhar: pensava em Maria Alice, que seria sua esposa dali a um mês. Agradeceu a Deus por tê-la mandado para amá-lo e rezou um pai nosso. Foi tomar seu costumeiro banho de cuia das cinco da tarde e, depois, passou seu desodorante de leite de rosas. Penteou o cabelo de lado e botou a camisa para dentro da calça. Ia encontrá-la, precisava estar bem apresentado. Montou em sua bicleta e, assoviando, imitando canto de um passarinho qualquer, deu início ao seu caminho.


Lá pelas tantas do caminho, viu um táxi cambaleando pela estrada, que parou, e dele saíram dois homens bem vestidos da cidade. Olhou janela adentro, o motorista agonizante, ensanguentado e esfaqueado pedia ajuda. José Davi, que na roça aprendera que Deus manda ajudar quem precisa, prontamente entrou no táxi, tomou o lugar do motorista e o levou até o hospital. Lá chegando, teve que esperar a polícia. Contou a história e ficou detido até que se esclarecessem os fatos. Os dois bonitões foram encontrados e, em seus depoimentos de espertos da cidade, disseram que era tudo mentira de José Davi e fora ele quem cometera o crime. O taxista não viveu para contar a história. A polícia acreditou nos urbanóides e encarcerou o simplório agricultor. Nada de casamento. Mas Maria Alice havia sido escolhida por Deus para amar José Davi. Em companhia da futura sogra e contrariando a família, todos vigésimo dia do mês vestia seu vestido mais bonito e ia visitar o amado injustiçado. Após três anos, a mãe dele morreu e a família dela não mais permitia a sua visita ao presidiário.


A sorte foi que, um ano depois, em um mercadinho, o dono, agaixado arrumando mantimentos, ouviu a conversa de dois homens que chegaram e não o viram: “olha, não beba mais, a sua última bebedeira rendeu a morte de um taxista e a prisão de um inocente”. E o outro: “tá bom, eu matei mesmo, estava bêbado, mas vou me controlar”. O santo dono do mercadinho avisou à polícia que, depois de algumas investigações, libertou José Davi. Não é que, depois de um ano sem vê-la, Maria Alice estava lá à sua espera? Os dois conseguiram se casar! Mas João Davi nunca permitiu que ela engravidasse porque esse mundo é cruel demais para botar gente de bem no mundo.


Dois mil e nove. Gino, jornalista, trinta e poucos anos, um filho de sete, estava, em companhia de um amigo, esperando o ônibus no centro da ilha capital do Maranhão. Ouviram um tiro e, logo em seguida, uma mulher gritando por socorro. Os dois foram acudi-la e, quando a polícia chegou, a maluca disse aos policias que Gino e seu amigo haviam sido os autores do tiro. Os fardados acreditaram e, prontamente, promoveram-nos a bandidos e enfiaram-nos no porta-malas do camburão. Seguiram caminho inverso da delegacia e, numa rua escura, pararam o carro, a procura da arma do crime e da confissão. Humilharam-nos e criticaram a cor da pele e o cabelo sarará do amigo de Gino. Mesmo sem ter achado a arma, levaram-nos até a delegacia, engavetaram-nos em uma cela, ao lado de um sujeito sob efeito de craque, gritando a noite toda pelo juiz. De manhã o delegado chegou, não encontrou arma nenhuma e soube que a mulher ferida, já calma, reconhecera que se enganou quanto ao autor dos tiros. Gino e o amigo foram para casa. Gino, durante um mês, sonhava todos os dias com as cenas e pensava o que poderia fazer para proteger seu filho dos males desse mundo. Concluindo que não havia meios, desesperava-se. Mas, como o tempo cura tudo, o fato adormeceu.


Assim a vida segue. João Davi e Maria Alice sem seus filhos e Gino tentando achar um mundo menos injusto para o seu.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Olivier


Cuide-se, querido amigo
rode mesmo o mundo
vire-o pelo avesso
deixe o mundo rodá-lo
virá-lo de ponta-cabeça
piruetas, cambalhotas
tudo vale à pena cantar
ciranda, reggae, cacuriá
é merecido dançar
só girei nesses versos
nada disse com substância
tudo bem, apenas quis falar
e...rodar

sexta-feira, dezembro 04, 2009

A Escrita Troncha de Jandira



Jandira, analfabeta abestada, de traquejo de vida não sabia nada. Mas ia dizer, e todos podiam ouvir o que ia dizer. Esse pedacinho de letra que escreveu foi só amostragem de sentimento, foi a vontade que tinha de abarcar o mundo e de chorar. Foi, então, contando essa história, mas não garantiu que não falaria coisa de si mesma, pois era gente de espécie mediana, que não sabia falar muito além de si. Do começo, não sabia se devia contar porque esse negócio de tempo em linha reta não era verdade absoluta: ouviu dizer que as partículas atômicas voltam no tempo. Talvez agora, o acontecimento último, seja o começo do que aconteceu antes.


O que contou do fim, do agora, foi a lembrança de uma cena do homem deitado na rede, rodeado por alegres ouvintes, contando a história de uma certa burrinha. Por mais que se esforçasse, não se lembrava do causo. Só sabia que era cena de filme o seu falar. Queria ela ter cacife para contar a história dele e as histórias que conta. Não havia nada de mais nesse sujeito, era gente como qualquer gente, mas era pessoa que olhava nos olhos. Seus grandes olhos cor de sapoti não pareciam temer qualquer coisa.


Com sorriso de Monalisa, vinha, então, andando o homem paralelamente à cerca recém-instalada na propriedade. Sempre carregando algum cacareco nas mãos, vestia blusa larga, estampada, chapéu de palha na cabeça, barba branca. Olhos de sapoti, castanhos, grandes, que olhavam destemidamente outros olhos. Do outro lado, vendo a imagem do personagem formar-se no papel em branco e chegar até a solidão de sua escrita, Jandira - tentando quase inutilmente fazê-lo ter vida por meio de letrinhas bem menos atraentes que a cena real – deu-se conta de que um bom personagem para a sua história acabara de nascer.


Desfez-se a imagem do homem caminhando, agora o via deitado em rede, baforando algum tipo de cigarro santo. Ele não tinha cara de profeta, nem de anjo, que bom! Era um palhaço de bochechas marrons e voz de violeiro. Empolgado com a conversa, iluminado pela pouca luz do fim da tarde, dedo indicador em riste, decretou: “Você será a maior escritora desse país!”. “Do país não, do mundo!”- retrucou ela, celebrando um sonho que ele ali sonhava com ela. Ele foi um grande personagem palhaço da escrita troncha de Jandira.
(...)

terça-feira, março 31, 2009

Nicolimba


“Ela está pitando também” - notou o singular senhor. Devia ter uns setenta anos, protegia-se do sol claro de São Luís com boné branco, cobria-se com camisa de botão e calça jeans. “Eu gosto mais é do meu fumo, esse tem muita nicolimba”. “Qual é o fumo do senhor?” - perguntou a inveterada fumante. “Ah o meu é do forte, eu compro lá no meu território, fumo no cachimbo, trago tudo”. “Vixe, deve dar até tontura!”. “Ah, não entomba não, é bom demais!”. Pôs a mão no bolso de trás de calça, que voltou mostrando o pacote do fumo motivo de tanto orgulho. Estava acompanhado de um mulher, também fumante de nicolimba, vestindo blusa de uniforme, pitó no cabelo, calça jeans, que deixou passar o ônibus que esperava para acabar de degustar seu cigarro. O ponto de ônibus da praça Odorico Mendes estava lotado de pessoas em direção aos seus territórios. Acabou o cigarro da outra mulher, que disse “até logo” e partiu. Acabou-se o causo. Mais um acontecimento da vida.