Jandira, analfabeta abestada, de traquejo de vida não sabia nada. Mas ia dizer, e todos podiam ouvir o que ia dizer. Esse pedacinho de letra que escreveu foi só amostragem de sentimento, foi a vontade que tinha de abarcar o mundo e de chorar. Foi, então, contando essa história, mas não garantiu que não falaria coisa de si mesma, pois era gente de espécie mediana, que não sabia falar muito além de si. Do começo, não sabia se devia contar porque esse negócio de tempo em linha reta não era verdade absoluta: ouviu dizer que as partículas atômicas voltam no tempo. Talvez agora, o acontecimento último, seja o começo do que aconteceu antes.
O que contou do fim, do agora, foi a lembrança de uma cena do homem deitado na rede, rodeado por alegres ouvintes, contando a história de uma certa burrinha. Por mais que se esforçasse, não se lembrava do causo. Só sabia que era cena de filme o seu falar. Queria ela ter cacife para contar a história dele e as histórias que conta. Não havia nada de mais nesse sujeito, era gente como qualquer gente, mas era pessoa que olhava nos olhos. Seus grandes olhos cor de sapoti não pareciam temer qualquer coisa.
Com sorriso de Monalisa, vinha, então, andando o homem paralelamente à cerca recém-instalada na propriedade. Sempre carregando algum cacareco nas mãos, vestia blusa larga, estampada, chapéu de palha na cabeça, barba branca. Olhos de sapoti, castanhos, grandes, que olhavam destemidamente outros olhos. Do outro lado, vendo a imagem do personagem formar-se no papel em branco e chegar até a solidão de sua escrita, Jandira - tentando quase inutilmente fazê-lo ter vida por meio de letrinhas bem menos atraentes que a cena real – deu-se conta de que um bom personagem para a sua história acabara de nascer.
Desfez-se a imagem do homem caminhando, agora o via deitado em rede, baforando algum tipo de cigarro santo. Ele não tinha cara de profeta, nem de anjo, que bom! Era um palhaço de bochechas marrons e voz de violeiro. Empolgado com a conversa, iluminado pela pouca luz do fim da tarde, dedo indicador em riste, decretou: “Você será a maior escritora desse país!”. “Do país não, do mundo!”- retrucou ela, celebrando um sonho que ele ali sonhava com ela. Ele foi um grande personagem palhaço da escrita troncha de Jandira.
(...)
2 comentários:
esse negócio de burrinha protagonizando uma cena me lembra o humberto falando de uma que tava "cheia de loiça", rsrsrs
Joiza! Trabalho pertinho de escritora e não sabia! Admirável tua intimidade com as palavras! Adorei teus textos, não li ainda todos, mas certamente já tens uma "seguidora" rsrs, parabéns e grande abraço!
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