Este Lugar



Se por aqui passar, fique em silêncio se assim quiser, mas deixe um sinal se puder.
Se entediar, tenha paciência: minha palavra há de melhorar!



segunda-feira, outubro 18, 2010

Conclusão


Hoje cheguei à estonteante conclusão
Foi o que disse a minha razão
Todo mundo faz cagadas
Literais e metafóricas
Ações malamanhadas
Atitudes catastróficas
Uma escolha errada aqui
vai dar numa trombada ali
Mas tem hora que dá tudo certo
Do impossível chega-se perto
Pouco há de sentido nessa vida
O bom mesmo é dar a partida
Construir uma forma de ser
E no que vai dar pagar para ver

quarta-feira, outubro 13, 2010

Asneiras de uma Internauta


Esses blogs são tão chatos
Desprovidos de qualquer graça
Uns pensamentozinhos baratos
De conversa de banco de praça
Depósito de frustrações
De prolixas elucubrações
De gente de si falando
E ninguém ouvindo
Melhor seria sair andando
Esquecer esses links zunindo
E eu aqui postando
Navegando nesse tédio
Que de solidão não é remédio
Minhas monotonias
Mentais avarias
Melhor navegar no mar
Que tem onda para derrubar
Marola para acalmar
Horizonte para mirar
E você lendo essas asneiras
Deveria estar plantantado bananeiras!

quarta-feira, setembro 29, 2010

Saudades



“Beijo. Já estou com saudades”. Foi o que disse o menininho de dois anos e meio ao se despedir da criança vizinha, quem vê todo santo dia. Trinta meses de existência e já fala de saudades! Tenha calma, criança, que elas vão acompanhá-la! A vida, desde o começo, é coleção delas. As pessoas vêm, vão, às vezes voltam, outras nunca mais. Mas as danadas não arredam. Do amor antigo, do novo, do cachorro atropelado, do cheiro de uma cidade. Existem aquelas que não passam nunca: os anos correm, as pessoas se apartam, o tempo não as deixa mais se juntarem, mas as ditas cujas estão lá, imponentes. Ainda há outras, incompreensíveis, de sentir por alguém que se conheceu ontem e de quem a respeito muito pouco se sabe. Até de dor, caro leitor. De migalhas que pareceram essenciais à respiração. Solidão. De um beijo na bochecha quando menos se espera. Inusitadas, de um arroz pregado! De um olhar de mistério, de boa música, de estrada sem curvas e sem caminhões. De quem morreu num acidente estúpido. De umas boas horas de sexo com alguém que não se tornou cônjuge. Da companhia quase perfeita que sem mais nem menos se afastou sem dizer até logo. De dormir abraçado, ver filme juntinho, de cafuné. Do século XVIII ou de quando Cristo nem existia. Da pureza de espírito, das notas de uma flauta de bambu. Daquele beijo em agosto de 2006 – que nem foi assim tão bom! De casa, seja lá onde ela for. De uma terra distante, com gente, açudes e palmeirais e que hoje é só capim, gado e cerca. De Deus, quando ele não era dúvida. E para matar saudade, como é que faz? Jeito não há, ela vai apertando o peito até os olhos marearem. Mas é coisa boa de sentir, menininho, dá um coceirinha na alma! E essa sua, de quem você vê todo dia, é talvez a mais rara e verdadeira. Prepare-se que ainda vem muita natureza de saudade por aí!

segunda-feira, setembro 20, 2010

quarta-feira, janeiro 13, 2010

O Roçador e o Helicóptero


Alcântara. Um município no estado do Maranhão, com acesso pelo mar. Por ignorância e preguiça, ainda não descobri se é ilha ou se é continente. O fato é que lá existem ruínas da época do Império, povoados seculares, festa do Divino e de São Benedito, e uma base espacial. Passado e presente num mesmo lugar, em constante tensão. A história do povo de lá é triste, gente que, na época da ditadura, teve que dar lugar ao desenvolvimento do país. As pessoas precisaram sair do seu território e hoje moram em agrovilas, longe de mar para pescar, sem terra suficiente para plantar. Não sei os limites do sacrifício humano em nome do desenvolvimento, mas parece óbvio que as pessoas que precisam abandonar suas referências de vida sejam melhor tratadas. Havia um casal, o senhor Manuel a e senhora Constantina. Lá pelos anos oitenta, tendo acabado de se mudar para a casinha na agrovila, se viram sem saber onde plantar a mandioca e o arroz. Decidiram andar seis quilômetros em direção à base espacial e lá iniciar a roça. Era época de capina e todas as manhãs o senhor Manuel andava perto de duas horas para limpar o terreno para o plantio. Num belo dia de sol, sossegou a enxada para prestar atenção no barulho que ouvia de longe. O barulho se aproximou, ensurdecedor, acompanhado de um vento forte sobre sua cabeça: era um helicóptero da aeronáutica. A poeira levantada pelo vento das hélices e o barulho atordoaram o plantador, impedindo-o de continuar. Duas horas depois estava em casa novamente. “O que foi, por que voltou tão cedo?” - perguntou a esposa. “O helicóptero não me deixou continuar”. Os dois se entreolharam intrigados. No outro dia, um camburão com uns cinco fardados parou em frente à casa dos dois, do outro lado da calçada. Dona Constantinta, já chateada de ter perdido seu lar, pensou consigo mesma: “o que esses polícias estão fazendo na porta de um trabalhador?”. Ela chegou até a porta azul de sua casa na agrovila e, de braços cruzados e semblante grave, esperou os fardados se aproximarem. O que eles queriam ela já imaginava: proibir o seu marido de plantar em nome da segurança nacional. O casal, pequenininho por dentro, teve que acatar as ordens das autoridades. Continuam lá, vivos, superando seus dramas. Não podem mais viver da pesca e da roça, mas, dependentes de benefícios da seguridade social, compõem uma sociedade que busca o desenvolvimento. E a nação continua bem segura, tão segura que muitos brasileiros não conseguem transpassar as grades blindadas que a protegem.