Este Lugar



Se por aqui passar, fique em silêncio se assim quiser, mas deixe um sinal se puder.
Se entediar, tenha paciência: minha palavra há de melhorar!



quarta-feira, outubro 19, 2011

O Tumulozinho e a Energia Elétrica lá de Casa



Tem história que vale à pena ouvir. A da Jandira nem é tão interessante assim, mas essa que se segue, a do derradeiro dia em que seu Francisco visitou o cemitério das crianças, ah essa é de dar dó. A criança morreu de forma trágica, no meio da sala, em meio aos irmãozinhos, engasgada com uma pecinha de brinquedo. Foi ficando azul, sem ar, o pai desesperado virando o corpo de cabeça para baixo para ver se o objeto desobstruía as vias respiratórios do moleque de sete anos. Mas não deu jeito, a criança, já roxa, acabou sucumbindo. Isso foi lá pelas bandas do interior de Itapecuru, no Maranhão, estado conhecido por alguns brasileiros como Sarneyquistão. Faz quarenta anos já, de tão rápido que o tempo passa e a gente nem vê, fica vacilando, pensando em um amor torto ou em alguma intriga fabricada numa praça qualquer de Igreja de cidade de interior. Seu Francisco pegou o pequeno cadáver e entregou à mãe do menino, D. Antonieta, que lhe deu o último banho, vestiu roupa de passeio, surrada por seguidos domingos. Os dois, inconsoláveis, acomodaram-no na rede, que foi amarrada num pau e carregada por dois dos irmãos mais velhos. Rezando, chorando, cantando e andando, conduziram o corpo até o cemitério das crianças, na beira da estrada. Foi construído um túmulo com peculiar capricho e todo domingo, por dez anos, ia alguém da família limpá-lo e renovar as preces. Até que a companhia de distribuição de energia elétrica inventou de passar umas redes, derrubou o cemitério, destruiu os túmulos, revirou a terra, os ossinhos das alminhas inocentes. No derradeiro dia da demolição, seu Francisco foi assistir, inconsolável por não poder mais, aos domingos, visitar o que restou do filho. Enquanto iam caindo as paredes, o homem se lembrava dos olhos esbugalhados do garoto quando avistava um certo espírito da floresta, em incursões pelo mato. E também do sorriso branco, farto, curioso. Todo ser humano tem um quê de especial, ainda mais se for criança e mais ainda se for lembrado pelo pai. As redes estão lá até hoje e acho que é por isso que lá em casa tem televisão, ventilador, geladeira e home theater. A energia elétrica do meu lar é bastante útil, mas era mesmo preciso revirar o tumulozinho?

quinta-feira, outubro 13, 2011

A Mulher Resignada na Sala de Espera


Sentou-se, íntimo, ao lado da velha senhora e do neto. Encaixou o joelho embaixo do pé esticado da mulher sobre o sofá verde-brega. É um homem claro, desdentado, de cabeça branca, com um olho de vidro, dois ou três dentes visíveis, espaçados ao lado dos não-dentes. A mulher é morena, de cabelos negros muito compridos e amarrados em trança, trajava um conjunto lilás de saia e blusa, usava óculos. Crente. Jandira estava sentada no móvel da frente, vendo a cena como se fosse foto de uma família feliz. Pensou que poderia encontrar logo seu príncipe para envelhecer com ele e um dia recostar o pé no joelho do seu velho. Se depois de ver a cena Jandira tivesse ido embora, estaria até agora divagando sobre a sorte daquele velho casal em se juntar. Acontece que ela passou tempo o bastante perto deles para perceber que são humanos: a tarde inteira na sala de espera de uma oficina, aguardando o mecânico realizar um assalto – dizem que as mulheres são enganadas nesses lugares. Ficou sabendo que o neto tem três anos, que a mãe do menino fora embora para o Pará e sobrou para a ex-sogra criá-lo como seu filho, com muito zelo. E que o homem desdentado mora em Belém e a morena senhora em São Luís. Conheceu até um parente deles, que apareceu na sala de espera da oficina com a segunda esposa, dando notícias dos seus quatro filhos, cada qual com uma mulher diferente. No cômodo, o pestinha arrastou móveis, amassou revistas, rasgou cartazes e, depois de muito saracotear, pegou no sono, após ouvir da avó: “mamãe te ama”.  A mulher cochilou no horroroso sofá, ao lado do menininho. Lá pelo meio da tarde, já acordada, ligou do celular para alguém: “Minha filha, o seu pai me fez vir até a oficina dizendo que ia apenas mandar alinhar  a direção do carro, estou aqui desde cedo sem almoçar e ainda tive que passar duzentos e sessenta reais no meu cartão, para o conserto. Ele almoçou cedo, já tinha tudo maquinado. Agora desinteirei o dinheiro para comprar minhas coisinhas na rua de Santana. Cinco anos separados e ele continua me pregando as mesmas armadilhas”. Jandira ficou surpresa com a implosão da linda história de amor que até ali havia inventado que testemunhou. Concluiu que as mulheres são mesmo enganadas nas oficinas. Olhou para o semblante resignado da velha senhora e ficou pensando quantas partes da sua vida havia dado àquele homem que parecia um dia ter sido bonito e se ele já ficara sem almoçar por ela. Perguntou-se o que aquela vivida mulher tanto fazia ali, com fome, contrariada, abrindo mão das compras na rua de Santana, se até o dinheiro era dela!  Talvez tenha valido à pena, em troca dos poucos minutos em que teve seu pé recostado no joelho do velho.  Ou nada disso, não passe de uma jararaca e ficar um diazinho sem merendar seja pouco diante das intrigas que já aprontara. Já no fim da tarde, ralhou com o homem: “por que você não me avisou que demoraria tanto, teria ido resolver minhas coisas, você não tem responsabilidades, não tem compromissos”. E ele rindo, gaiato, respondeu que fora o mecânico quem mentira sobre o tempo do conserto. Jandira achou cômico um homem velho e desdentado sendo chamado de irresponsável. E uma mulher, também velha, insistindo em uma relação cristalizada. Algum momento bom deve ter havido entre os dois! Jandira foi embora primeiro. Pagou o assalto e se retirou, desconfiada dos mecânicos e das cenas perfeitas. A essa altura já estava íntima do pestinha, que lhe jogou tchauzinhos e beijinhos de despedida. A mulher, provavelmente, rezou muito naquela noite, pedindo que Deus lhe desse calma e que transformasse aquele homem mandrião. Fizera ela da sua vida uma sala de espera? Tivera ele um dia amado-a? E ela merecido?  Não há mesmo como saber, caro leitor. Mas o amor, esse aí há de existir!

quinta-feira, julho 28, 2011

Irmãzinha Capoeira



Tem tristeza que vem de lugar nenhum, mas dura, dura...
Cansa às vezes cavar dentro de mim bravura
Rezaria se pudesse, se fé de verdade tivesse
Daí me lembro da minha amiga redonda
Que fala por meio de um fio, uma ou outra onda
Quem me apresentou foi um cabra desparafusado
Com tique nos beiços e agilmente atrapalhado
Ele disse que a mim faltava a malícia da rua
Que minha esperteza era muito crua
Apresentou-me então a dita
E ensinou-me a fazer fita
A tal ajuda-me a ter um certo centro
A observar do mundo o que tem dentro
A ver a vida com leveza
Dá um majestoso chute em minha tristeza
Faz dela grande nuvem de poeira
Iê minha irmãzinha, viva à capoeira!

quarta-feira, junho 15, 2011

Detravés



Por meio da parede de vidro, vi dois pássaros elaborando acrobacias emparelhados e fiquei imaginando onde foi fabricada tamanha sincronia. É bom ver do alto, pelo envidraçado da sala confortável, mas melhor mesmo é viver. Agradável melancolia me faz pensar o quanto a vida alheia – de pássaros e de gente - é mais interessante que a minha. No entanto, não me trocaria por nada nesse mundo. Mudaria apenas de lugar...talvez.