Sentou-se, íntimo, ao lado da velha senhora e do neto. Encaixou o joelho embaixo do pé esticado da mulher sobre o sofá verde-brega. É um homem claro, desdentado, de cabeça branca, com um olho de vidro, dois ou três dentes visíveis, espaçados ao lado dos não-dentes. A mulher é morena, de cabelos negros muito compridos e amarrados em trança, trajava um conjunto lilás de saia e blusa, usava óculos. Crente. Jandira estava sentada no móvel da frente, vendo a cena como se fosse foto de uma família feliz. Pensou que poderia encontrar logo seu príncipe para envelhecer com ele e um dia recostar o pé no joelho do seu velho. Se depois de ver a cena Jandira tivesse ido embora, estaria até agora divagando sobre a sorte daquele velho casal em se juntar. Acontece que ela passou tempo o bastante perto deles para perceber que são humanos: a tarde inteira na sala de espera de uma oficina, aguardando o mecânico realizar um assalto – dizem que as mulheres são enganadas nesses lugares. Ficou sabendo que o neto tem três anos, que a mãe do menino fora embora para o Pará e sobrou para a ex-sogra criá-lo como seu filho, com muito zelo. E que o homem desdentado mora em Belém e a morena senhora em São Luís. Conheceu até um parente deles, que apareceu na sala de espera da oficina com a segunda esposa, dando notícias dos seus quatro filhos, cada qual com uma mulher diferente. No cômodo, o pestinha arrastou móveis, amassou revistas, rasgou cartazes e, depois de muito saracotear, pegou no sono, após ouvir da avó: “mamãe te ama”. A mulher cochilou no horroroso sofá, ao lado do menininho. Lá pelo meio da tarde, já acordada, ligou do celular para alguém: “Minha filha, o seu pai me fez vir até a oficina dizendo que ia apenas mandar alinhar a direção do carro, estou aqui desde cedo sem almoçar e ainda tive que passar duzentos e sessenta reais no meu cartão, para o conserto. Ele almoçou cedo, já tinha tudo maquinado. Agora desinteirei o dinheiro para comprar minhas coisinhas na rua de Santana. Cinco anos separados e ele continua me pregando as mesmas armadilhas”. Jandira ficou surpresa com a implosão da linda história de amor que até ali havia inventado que testemunhou. Concluiu que as mulheres são mesmo enganadas nas oficinas. Olhou para o semblante resignado da velha senhora e ficou pensando quantas partes da sua vida havia dado àquele homem que parecia um dia ter sido bonito e se ele já ficara sem almoçar por ela. Perguntou-se o que aquela vivida mulher tanto fazia ali, com fome, contrariada, abrindo mão das compras na rua de Santana, se até o dinheiro era dela! Talvez tenha valido à pena, em troca dos poucos minutos em que teve seu pé recostado no joelho do velho. Ou nada disso, não passe de uma jararaca e ficar um diazinho sem merendar seja pouco diante das intrigas que já aprontara. Já no fim da tarde, ralhou com o homem: “por que você não me avisou que demoraria tanto, teria ido resolver minhas coisas, você não tem responsabilidades, não tem compromissos”. E ele rindo, gaiato, respondeu que fora o mecânico quem mentira sobre o tempo do conserto. Jandira achou cômico um homem velho e desdentado sendo chamado de irresponsável. E uma mulher, também velha, insistindo em uma relação cristalizada. Algum momento bom deve ter havido entre os dois! Jandira foi embora primeiro. Pagou o assalto e se retirou, desconfiada dos mecânicos e das cenas perfeitas. A essa altura já estava íntima do pestinha, que lhe jogou tchauzinhos e beijinhos de despedida. A mulher, provavelmente, rezou muito naquela noite, pedindo que Deus lhe desse calma e que transformasse aquele homem mandrião. Fizera ela da sua vida uma sala de espera? Tivera ele um dia amado-a? E ela merecido? Não há mesmo como saber, caro leitor. Mas o amor, esse aí há de existir!
2 comentários:
pikena, tu coloca e tira os textos muito doidamente, rsrs
gosto deles, mas nem dá tempo de comentar, rsrs
Gostei de sua escrita. Lembrou-me José Saramago, talvez por que estou lendo "Ensaio sobre a cegueira".
Quanto a fantasiar uma cena que vemos...acho que faz parte da vida. No mínimo a tornamos mais divertida com isso. Temos que continuar acreditando...um dia quem sabe nossos sonhos se tornarão realidade. Bjo, Glétsia.
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