“Beijo. Já estou com saudades”. Foi o que disse o menininho de dois anos e meio ao se despedir da criança vizinha, quem vê todo santo dia. Trinta meses de existência e já fala de saudades! Tenha calma, criança, que elas vão acompanhá-la! A vida, desde o começo, é coleção delas. As pessoas vêm, vão, às vezes voltam, outras nunca mais. Mas as danadas não arredam. Do amor antigo, do novo, do cachorro atropelado, do cheiro de uma cidade. Existem aquelas que não passam nunca: os anos correm, as pessoas se apartam, o tempo não as deixa mais se juntarem, mas as ditas cujas estão lá, imponentes. Ainda há outras, incompreensíveis, de sentir por alguém que se conheceu ontem e de quem a respeito muito pouco se sabe. Até de dor, caro leitor. De migalhas que pareceram essenciais à respiração. Solidão. De um beijo na bochecha quando menos se espera. Inusitadas, de um arroz pregado! De um olhar de mistério, de boa música, de estrada sem curvas e sem caminhões. De quem morreu num acidente estúpido. De umas boas horas de sexo com alguém que não se tornou cônjuge. Da companhia quase perfeita que sem mais nem menos se afastou sem dizer até logo. De dormir abraçado, ver filme juntinho, de cafuné. Do século XVIII ou de quando Cristo nem existia. Da pureza de espírito, das notas de uma flauta de bambu. Daquele beijo em agosto de 2006 – que nem foi assim tão bom! De casa, seja lá onde ela for. De uma terra distante, com gente, açudes e palmeirais e que hoje é só capim, gado e cerca. De Deus, quando ele não era dúvida. E para matar saudade, como é que faz? Jeito não há, ela vai apertando o peito até os olhos marearem. Mas é coisa boa de sentir, menininho, dá um coceirinha na alma! E essa sua, de quem você vê todo dia, é talvez a mais rara e verdadeira. Prepare-se que ainda vem muita natureza de saudade por aí!
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