Mil novecentos o oitenta. José Davi, vinte anos, regou o último pé de mandioca da pequena plantação no interior do estado de São Paulo, olho para cima, respirou fundo e começou a sonhar: pensava em Maria Alice, que seria sua esposa dali a um mês. Agradeceu a Deus por tê-la mandado para amá-lo e rezou um pai nosso. Foi tomar seu costumeiro banho de cuia das cinco da tarde e, depois, passou seu desodorante de leite de rosas. Penteou o cabelo de lado e botou a camisa para dentro da calça. Ia encontrá-la, precisava estar bem apresentado. Montou em sua bicleta e, assoviando, imitando canto de um passarinho qualquer, deu início ao seu caminho.
Lá pelas tantas do caminho, viu um táxi cambaleando pela estrada, que parou, e dele saíram dois homens bem vestidos da cidade. Olhou janela adentro, o motorista agonizante, ensanguentado e esfaqueado pedia ajuda. José Davi, que na roça aprendera que Deus manda ajudar quem precisa, prontamente entrou no táxi, tomou o lugar do motorista e o levou até o hospital. Lá chegando, teve que esperar a polícia. Contou a história e ficou detido até que se esclarecessem os fatos. Os dois bonitões foram encontrados e, em seus depoimentos de espertos da cidade, disseram que era tudo mentira de José Davi e fora ele quem cometera o crime. O taxista não viveu para contar a história. A polícia acreditou nos urbanóides e encarcerou o simplório agricultor. Nada de casamento. Mas Maria Alice havia sido escolhida por Deus para amar José Davi. Em companhia da futura sogra e contrariando a família, todos vigésimo dia do mês vestia seu vestido mais bonito e ia visitar o amado injustiçado. Após três anos, a mãe dele morreu e a família dela não mais permitia a sua visita ao presidiário.
A sorte foi que, um ano depois, em um mercadinho, o dono, agaixado arrumando mantimentos, ouviu a conversa de dois homens que chegaram e não o viram: “olha, não beba mais, a sua última bebedeira rendeu a morte de um taxista e a prisão de um inocente”. E o outro: “tá bom, eu matei mesmo, estava bêbado, mas vou me controlar”. O santo dono do mercadinho avisou à polícia que, depois de algumas investigações, libertou José Davi. Não é que, depois de um ano sem vê-la, Maria Alice estava lá à sua espera? Os dois conseguiram se casar! Mas João Davi nunca permitiu que ela engravidasse porque esse mundo é cruel demais para botar gente de bem no mundo.
Dois mil e nove. Gino, jornalista, trinta e poucos anos, um filho de sete, estava, em companhia de um amigo, esperando o ônibus no centro da ilha capital do Maranhão. Ouviram um tiro e, logo em seguida, uma mulher gritando por socorro. Os dois foram acudi-la e, quando a polícia chegou, a maluca disse aos policias que Gino e seu amigo haviam sido os autores do tiro. Os fardados acreditaram e, prontamente, promoveram-nos a bandidos e enfiaram-nos no porta-malas do camburão. Seguiram caminho inverso da delegacia e, numa rua escura, pararam o carro, a procura da arma do crime e da confissão. Humilharam-nos e criticaram a cor da pele e o cabelo sarará do amigo de Gino. Mesmo sem ter achado a arma, levaram-nos até a delegacia, engavetaram-nos em uma cela, ao lado de um sujeito sob efeito de craque, gritando a noite toda pelo juiz. De manhã o delegado chegou, não encontrou arma nenhuma e soube que a mulher ferida, já calma, reconhecera que se enganou quanto ao autor dos tiros. Gino e o amigo foram para casa. Gino, durante um mês, sonhava todos os dias com as cenas e pensava o que poderia fazer para proteger seu filho dos males desse mundo. Concluindo que não havia meios, desesperava-se. Mas, como o tempo cura tudo, o fato adormeceu.
Assim a vida segue. João Davi e Maria Alice sem seus filhos e Gino tentando achar um mundo menos injusto para o seu.
Um comentário:
é legal que o tempo cura tudo. lembrei de uma música do baião de princesas que diz
"o tempo foi o meu mestre quem
me ensinou a curar"
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